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Em extrema pobreza, famílias vivem do lixão de Aparecida de Goiânia

Mais de 158 famílias moram em volta do lixão de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, e sobrevivem com o pouco dinheiro arrecadado com a venda de materiais recicláveis que eles recolhem no lugar, segundo levantamento do Instituto Espírita Batuíra. A maioria delas vive em uma situação de probeza extrema, em casas de chão batido, lona e tábua no bairro Vale do Sol. No entanto, em meio às dificuldades, pais fazem questão de que os filhos estudem para que possam sair do local e ser “alguém na vida”. O maior medo que eles enfrentam atualmente é que o local seja fechado, o que está previsto para acontecer no próximo dia 10 de janeiro.

Uma dessas famílias é a de Valci Marques de Oliveira, 34 anos, que está grávida do 8º filho e já tem um neto, de seis meses. Por causa da gravidez, ela teve de parar de trabalhar. Com isso, dez pessoas são sustentadas com R$ 500 que o marido dela, Wenberson Caetano da Silva, de 34 anos, recebe como catador.

Morando nas proximidades do lixão há 15 anos, ela saiu da Bahia em busca de melhores condições de vida. Sem saber ler e escrever, Valci precisa olhar em documentos pessoais para se lembrar da data do próprio aniversário. “Nunca comemorei um aniversário. Nunca ganhei presente. Não sei como é isso”.

Apesar da memória falha, ela não esquece o que já passou nesses 15 anos vivendo de catar materiais recicláveis do lixo. “Já chegou ao ponto de meus filhos pedirem comida e não ter. Olhar dentro de casa e não ter nada”, conta.

Valci, que morava em um barracão de lona, conseguiu construir com o dinheiro do lixão e doações uma casa de alvenaria. Com quatro quartos, sala e cozinha, o local foi coberto com telhas há menos de dois meses. “Já dormimos na chuva”, recorda-se.

Apesar de dormir mais tranquila, a casa de Valci precisa de muitos reparos, pois ainda não tem um banheiro instalado. “A gente toma banho na caneca e usa o mato também como banheiro”. Além disso, as telhas não protegem totalmente da chuva, pois muitas estão quebradas. “Se um dia eu fosse ganhar um presente, ia pedir a reforma da minha casa, para poder ter mais tranquilidade”, diz.

Com filhos de 15,14,12,11,10, 8 e 2 anos, Valci levava os mais velhos para ajudar no trabalho no lixão. No entanto, há seis meses, eles pararam de ir ao local por determinação do Conselho Tutelar. “Acho bom proibir as crianças de ir lá porque sei que não é lugar bom pra eles. Mas a gente não tem outro meio de sobreviver”, pondera. Além de proibir que os meninos trabalhem no local, o órgão, segundo Valci, exige que ela fique com os filhos.

Mesmo quando os meninos iam para o lixão, a catadora afirma que eles não faltavam aula. “Falo para meus filhos estudarem porque é o único jeito de sair do lixão, de ser uma pessoa que saiba viver”, diz.

Filho de Valci, Jeferson Taveres Marques Oliveira, 14 anos, trabalhou por cinco anos no lixão. “Eu catava latinha e vendia. Nojento eram os coros. Eu achava bom, era divertido e tinha meu dinheiro. Até já fui escondido porque queria ter dinheiro”.

O menino, que não tem vergonha de contar que já trabalhou no lixão, quer mudar de vida. “Estudo porque quero trabalhar em outro lugar. Quero ser policial”, afirma.

Além dos sete filhos, Valci também tem que se preocupar com o neto de seis meses. Ela conta que se assustou com a notícia de que a filha de 14 anos, Jéssica Tavares Marques Oliveira, estava grávida. “Fiquei sabendo quando ela estava de sete meses. Chorei e até desmaiei quando soube porque pensei como ia cuidar de mais um bebê. Depois, acalmei e decidir que ia lutar. O que eu posso fazer por essa criança, eu faço”, conta. A família não conhece o pai do bebê.

Após ser abandonada pelo marido, Valci passou a morar com o atual companheiro, que é o pai do filho que ela espera. A mulher não sabe em qual mês de gestação está porque os exames não estão prontos.

Rodeado por lixo

Quem também vive do lixão é Alessandro de Brito, 34 anos. Em um barracão de lona e tábua, de três cômodos, ele vive com a mulher, dois filhos e mais nove homens que não possuem lugar para morar.

Banheiro é um luxo para eles, que tomam banho de mangueira e usam uma privada que fica no fundo do terreno. “O governo prometeu casas pra gente, mas nunca saiu. Então, continuamos aqui”, conta.

Alessandro vive, literalmente, rodeado por lixo. Ele conta que há nove anos recolhe materiais no lixão e leva para a área em volta da casa para selecionar os recicláveis e fazer os “bags”, nome dado às malas de produtos que vão para a reciclagem. “Para render mais, todos trabalhamos juntos”.

Apesar de viver com pouco mais de R$ 600 mensais, ele alega que os filhos, de 4 e 5 anos, não trabalham. “Eles vão para a escola. Eles têm que estudar para procurar ser melhor”. Alessandro sonha com uma vida melhor para as crianças, mas confessa que não saberia fazer outra coisa: “Se tivesse outra coisa melhor, eu mudaria, mas não sei, não tenho nada em vista”.

Os catadores temem o fechamento do aterro sanitário, que está previsto para o dia 10 de janeiro. “Muita gente vai ser prejudicada”, diz Alessandro. Eles alegam que a proibição deve reduzir a renda mensal. “Acho que vai ficar difícil para gente porque se a gente precisa de um leite, vai lá, pega algo [material reciclável], vende e compra o leite. Agora não vai ter como mais”, afirma Valci.

Projeto da prefeitura

Diretora do programa de resíduos sólidos da prefeitura de Aparecida de Goiânia, Márcia Nayane Rocha Santana afirma que o fechamento do aterro é uma adequação prevista na política nacional de resíduos sólidos e no novo plano de gestão do município. Ela alega que a medida não vai prejudicar as famílias. “Demos prazo para eles se adequarem. Nem toda mudança é fácil. O ritmo de trabalho é outro, mas nós não vamos deixá-los desamparados”, afirma.

Com o fechamento do aterro, os caminhões da coleta seletiva vão descarregar diretamente no galpão da Cooperativa de Catadores de Lixo de Aparecida de Goiânia (Cocap). “Agora, eles vão ter que se filiar à cooperativa. É diferente para quem está acostumado a trabalhar de forma individualizada. Como eles catam e vendem até no mesmo dia, eles têm dinheiro na mão. Na cooperativa, é só no final do mês. Lá, você tem que cumprir hora de trabalho”, explica Márcia.

A diretora alega ainda que os catadores da cooperativa recebem benefícios, o que muitas vezes quem não está filiado não enxerga. “Na cooperativa, eles ganham cesta básica, roupa, doações e recebem o salário. Como lá é uma região vulnerável por uma série de fatores, eles acreditam que sensibiliza mais a comunidade ficar dentro do aterro do que na cooperativa”, afirma.

Fonte: G1

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