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Líder comunitária transforma vidas de mulheres a partir da reciclagem

Fonte: Sul21

Há 20 anos, Marli Medeiros já se preocupava com a vida das mulheres da Vila Pinto, no bairro Bom Jesus, em Porto Alegre. Vinda de Alegrete em 1975 com suas três filhas, apenas com ensino fundamental completo, foi vítima de violência doméstica e iniciou o projeto que deu início a uma usina de triagem de referência na capital gaúcha. Em 1992, formou o Clube de Mulheres na comunidade, para onde havia se mudado há dois anos, no ano seguinte formou-se Promotora Legal Popular e buscava uma forma de motivar as companheiras a saírem do tráfico ou de relações abusivas, descobrindo a possibilidade da transformação pela reciclagem.

A história da vila, que hoje conta também com um centro cultural e uma instituição de educação infantil, é permeada pela trajetória da própria Marli, que chegou lá quando grande parte do local “ainda era mato”, como costuma dizer. Em uma região que era dominada por tráfico e violência, ela foi desafiada pelas mulheres da comunidade a formar um projeto que servisse como alternativa de renda para as que estavam envolvidas com crimes. Em um evento que congregava diversos movimentos de mulheres, descobriu o filme Ilha das Flores, de Jorge Furtado, que a inspirou a construir o galpão de reciclagem. “Eu estudei, fui em lixões, percebi que realmente existia a alternativa de criar o galpão. Eu cheguei para as mulheres e disse: ‘a droga é a morte, o lixo é a vida’”, relata ela.

O projeto foi crescendo. Onde inicialmente havia sido construída a usina de triagem, atualmente fica o centro cultural, fundado em 1996, quando Marli conseguiu verba suficiente para criar um novo galpão, data que também marca a inauguração do Centro de Educação Ambiental. Na usina, trabalham pouco mais de 40 pessoas, das quais a maioria são mulheres, que separam o lixo que chega ao local, além de terem todas as funções de liderança e administração. Os homens fazem o trabalho mais braçal, como colocar e retirar o material reciclado das prensas.

Em 2000, foi inaugurado o Centro Cultural James Kulisz, a partir de demanda das próprias associadas do Centro de Triagem, que queriam uma alternativa para que seus filhos não ficassem nas ruas durante o turno em que não tinham aulas. “Algumas pessoas me falaram que não fazia sentido fazer um centro cultural dentro de um galpão de reciclagem, mas eu fiz e funciona muito bem”, conta ela, que conseguiu construir o local graças à sua capacidade de estar “no lugar certo na hora certa”, conforme define.

O nome do Centro homenageia um jovem que morreu vítima de câncer e que sempre gostou de projetos sociais, especialmente envolvendo a juventude. Antes de morrer, pediu que suas irmãs ajudassem alguma instituição com o dinheiro que ele deixaria, e Marli, por acaso, as ouviu falando do assunto. Na época, em uma reunião do Sindicato das Indústrias da Construção Civil, ela teve a oportunidade de falar sobre o projeto e angariar apoio de diversas empresas. Atualmente, são cerca de 520 crianças e jovens atendidas por dia no local, que conta com biblioteca, sala de cinema, de jiu-jítsu e de atividades variadas. Ao lado, há ainda uma quadra de esportes, que nesta terça-feira (11) recebia uma grande festa de dia das crianças.

Não satisfeita com as conquistas até então, Marli ainda pretendia mudar mais a vida da comunidade. Em 2007, tirou do papel o sonho de construir a escola de educação infantil Vovó Belinha, que fica em frente à Escola Municipal de Ensino Fundamental José Mariano Beck, próxima da usina. O local atende cerca de 130 crianças de 0 a 5 anos, divididas em sete turmas, e oferece quatro refeições diárias, que muitas vezes são a única possibilidade de alimentação para os alunos. A partir de um convênio com a Secretaria Municipal de Educação, é possível pagar as funcionárias, mas Marli afirma que ainda se esforça para conseguir pagar a comida. “Tenho que andar mendigando pra conseguir comprar. Tem gente que diz que a creche é tão boa que as crianças vão crescer mal acostumadas, mas eu quero que elas saibam que podem ter coisas boas”, afirma.

O objetivo dela é garantir, além da segurança das mulheres, o bem-estar das crianças e jovens da vila, o que é possível a partir da creche, do centro cultural e, ainda, de parcerias com programas como o Pró-Jovem e o Jovem Aprendiz, que fazem com que os adolescentes da comunidade consigam aprender ofícios e obter empregos. Além dela própria, a família de Marli também é engajada e participativa: uma de suas filhas trabalha no Centro de Educação Ambiental e outra é conselheira tutelar. O neto, Henrique, “faz de tudo” no local e cresceu em meio às ambições da avó, observando e participando das mudanças que ocorreram. “Eu nasci e cresci aqui, sou motoboy, apresentador, captador de recursos, o que precisar. Em um lugar como esse, é importante ter educação para todo o lado, temos que estar o tempo todo atentos às crianças”, relata o jovem de 25 anos.

Vidas mudadas pela reciclagem

A coordenadora operacional da usina começou a trabalhar no local em 2000, como separadora de lixo. Na época, Sirlei Batista de Souza tinha ensino fundamental incompleto, enquanto hoje já fez o exame nacional do ensino médio (Enem) e pretende ingressar em uma faculdade. “Agora decidi, vou fazer gestão ambiental. Antes eu pensava em ser assistente social, estava indecisa”, relata ela, ao ser questionada por Marli. Vinda de Santo Ângelo para a Vila Pinto, ela foi abandonada pelo marido e precisava de uma forma de sustentar os filhos quando começou a trabalhar na usina. Tem três filhas e dois filhos, um de 13 e um de 10, ambos lutadores de jiu-jítsu que treinam no centro cultural e se destacam: o mais velho é vice-campeão mundial.

Os maridos dizem que a usina “coloca pilha nas mulheres”, conforme define Marli, relatando que já foi chamada na 15ª Delegacia quando um homem relatou que sua esposa havia mudado e não era mais “obediente”. “Aqui, elas conversam, elas se fortalecem porque descobrem que seus problemas não são diferentes dos das outras. Esse é um projeto absolutamente revolucionário”, constata a presidente da usina. As trabalhadoras recebem baseado na produtividade, e a renda fica em torno de um salário mínimo e meio por mês.

Para Rosane Mariana, a usina foi sua salvação: vítima de violência doméstica, diagnosticada com depressão severa e com um filho envolvido com o tráfico, a reciclagem foi a alternativa para conseguir sustentar a família. “Meu filho mais velho está em uma casa de proteção, porque sofria ameaças. O mais novo, de 13 anos, está comigo, mas eu sou sozinha pra sustentar. Então melhorou muito quando eu comecei a trabalhar aqui”, conta.

Uma das funcionárias mais antigas é Virgínia da Silva, que tem 74 anos e vê na usina uma possibilidade de emprego que não teria em outros locais. “Eu sou sozinha, e tinha que trabalhar para sustentar minha família, fui ficando velha demais para trabalhar em casa de família. A gente sabe que aposentadoria é esmola, então tem que se virar. E eu gosto de trabalhar aqui, em casa vou ficar fazendo o quê? Só saio quando morrer ou quando parar de caminhar”, afirma ela, que é conhecida por ter “ressuscitado”: antes de começar a trabalhar na usina, teve uma pedra na vesícula que estourou e chegou a ficar 9 meses em coma.

Enquanto conversam, as mulheres separam o lixo rapidamente, colocando em barris azuis destinados a cada material, divididos de forma complexa, entre papelão, papel branco, garrafas pet, embalagens de plástico, vidros, sacolas de plástico, e outros. O lixo é recebido a partir de parceria com a Prefeitura, no programa Todos Somos Porto Alegre, que encaminha o material da coleta seletiva da cidade para as usinas de triagem conveniadas, o que é o caso da Vila Pinto. “Hoje, é o centro de triagem mais bem-remunerado da cidade. Nós nem sentimos a crise, porque o lixo continua existindo e nós já estávamos bem organizadas”, afirma Marli, com tranquilidade.

Com várias parcerias de entidades públicas e privadas, a usina se consolidou como o coração das mudanças na comunidade e exemplo de case bem-sucedido em termos de reciclagem. A pró-atividade e vontade de sempre melhorar a vida dos moradores é o que move Marli, que aos 64 anos não pretende deixar de administrar os negócios tão cedo. Pelo contrário, ela tem a ambição de qualificar ainda mais o trabalho feito pela creche, sempre pensando em proporcionar melhores oportunidades para as crianças.

srzz

 

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